Minhoca no Pais das Salsichas

Relatos de uma Minhoca de sandália e meia branca

Sábado, Dezembro 19, 2009

dez dias apenas

Entretanto, daqui a dez dias estou de partida para a Índia.
Para os curiosos, aqui fica o trajecto:

29.12 chegada a Nova Deli
31.12 voo Amritsar, Punjab
03.01 Agra, Uttar Pradesh
04.01 - 07.01 Jaipur, Rajasthan
07.01 - 11.01 Jodhpur, Rajasthan
12.01 - 14.01 voo Varanasi, Uttar Pradesh
15.01 - 21.01 voo Varkala, Kerala no Sul da Índia

Já estou a comecar a ficar com a sensacao de formigueiro... e tenho comido com a mao DIREITA, para ir treinando. Levo trinta saquinhos de gomas para os primeiros little indian people, que me passarem pela frente. :)

Conversa ao telefone na semana passada com uma colega:

Colega: Entao e já tens a mala pronta? Nao te falta nada?
Minhoca: tenho aqui uma lista das coisas que ainda me faltam: isqueiro, fósforos, uma vela, barras energéticas, pilha, canivete suíco, lencos e toalhetes, Autan, uma fronha, saco-cama...
Colega: Aaahhh, vais acampar, nao é?
Minhoca: NAO!!!!!

Apenas sou daquelas que prefere ter e nao precisar do que nao ter de todo. Do saco-cama o Bola ainda nao sabe. Vai ter um xelique. Mas as relacoes muitas vezes obrigam a este comportamento baseado na surpresa, nao dá doutra forma.

briol

Está mesmo muito frio para estes lados. Tanto frio que hoje me atrevi a andar com uns collants daquela cor que as senhoras de idades usam. Andar na rua com nove graus negativos nao é facil. Porque o frio entra sempre. Nao interessa o numero de mangas que tenha, o frio la se infiltra e o nariz nao para de pingar. Os olhos nao dá para abrir completamente. Está muito frio e nem a taca de vinho quente do mercado de Natal me aquece.
Aqui umas fotos que tirei da janela de casa esta manha.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

Uma ordinária

Agora que a Popota apareceu a abanar os quadris em frente ao Taj Mahal, a Leopoldina comecou-se a sentir ameacada, vai daí comeca a produzir-se como se fosse para ao engate! Agora é ve-la armada em boa, de rímel e colete justo, toda cintada e arrebitada como se fosse para a noite.
E naquele anúncio com o Paulo Pires, olha para ele como se lhe quisesse fazer a folha.

Este é o espírito natalício que se vive por cá. O Natal longe da minha família nao tem graca nenhuma. O que tambem nao tem graca nenhuma é a primeira mini-tempestada de neve, que é o suficiente para numa estrada boa, me fazer andar em segunda, pois o carro derrapa como se nao houvesse amanha.

Entretanto, vou-me entupindo de bolachinhas de Natal, pois as maes e avos de metade dos meus colegas passam o advento de avental e mao na massa. E sao maravilhosos.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Gore tex: um mundo novo se abriu

No sábado passado o Bola apresentou-me um mundo que faz tanto parte da cultura do país das salsichas, que nao era o mundo da meia branca, mas sim o mundo dos TREKKING SHOES.
Quando os alemaes se fazem à estrada, já ninguem os agarra. É ve-los subir montanhas, andar como se estivessem hipnotizados, como se fossem a perseguir alguem, como se no fim do trajecto houvesse o tal tesouro que dizem haver no final do arco-íris. É dos trekking shoes!! É dos sapatos. Pois algum alemao vai correr de ténis?? Claro que nao. Os trekking shoes fazem tanto parte da vida dos alemaes como fazem as salsichas. E olhem que eu sei do que estou a falar, pois no sábado meti as minhas patinhas de Minhoca dentro de este espécimen aqui abaixo e nem queria acreditar que é possível caminhar assim, como se a minha sola fosse feita de ventosas, mas daquelas que nao colam ao chao. Ventosas bem caras, por sinal.
Eu quero trekking shoes. E Gore-tex. E lindos como estes. Para me serem fanados por um indiano mal-intencionado que nao resistiu ao brilho das minhas sapatolas abandonadas à entrada de um templo qualquer.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

ir num pé e vir no outro

Pois, dei ali um saltinho a Portugal por uma semana. Fui num pé e vim no outro. A minha viagem é sempre muito emocionante e quando falo da viagem, refiro-me neste caso apenas à utilizacao dos meios de transporte. À ida é sempre uma desgraca, antes de embarcar fico vinte minutos presa no WC, tal é a forma como os meus intestinos absorvem o meu medo de andar de aviao. Especialmente sozinha. Tenho medo de nas descolagens, um destes dias agarrar no braco do meu vizinho de bordo ou desatar aos gritos, a dizer que preciso de um pára-quedas.
A viagem de ida correu sem grandes turbulencias, a uma hora boa do dia. Antes da aterragem, à medida que o aviao ia pairando sobre o Lisboa, o meu coracao emigra comecou a bater mais depressa, fechei as palmas das maos uma na outra e fui observando com uma alegria imensa o Atlantico, o Tejo, as Amoreiras, o transito que lá de cima parece tao fluido e organizado. Aterro com a mesma fome habitual, nao só da comida, mas das pessoas, do dialecto que falam, do cheiro do ar, da vida nas cidades em Portugal que é tanta comparada com a letargia do país das salsichas nesta fase do ano. Quando finalmente ponho o nariz fora do aeroporto, os meus sentidos todos despertam e sinto-me desperta e viva, pronta para comer, cheirar e ouvir todas as conversas à minha volta. E assim me deixo ir por maravilhosos sete dias.
No regresso, é tudo mais triste. Desta vez, o meu companheiro de lugar no Alfa pendular sentiu-se enjoado a viagem toda, tendo sido interpelado quatro vezes pelo revisor que tanto falava com ele, e tantas perguntas lhe fazia que eu estive perto de gritar cale-se-seu-parvalhao-que-ele-ainda-vomita-de-tanto-o-ouvir-falar-e-eu-tambem. Eu nunca enjoo de comboio, mas nem uma alminha bem artilhada de vomidrin® aguenta este cromo a falar da técnica com que se movimenta um comboio pendular e dos enjoos em pessoas com quebras de tensao, diabetes, de idade avancada, etc e se nao quer um chocolate, água com acucar ou ir morrer longe.
Chegada ao aeroporto, deparo-me com uma fila enorme de gente a passar no controlo de substancias ilícitas. Com embarque as 18:15, eram 18:30 e eu ainda nao tinha sido apalpada pela mocinha simpatica do controlo, com passagem especial pelo meu cinto e calcado, ou interpelada pela razao de levar quinhentas chouricas na mala de mao. Comecei a ficar ansiosa, com as palmas das maos húmidas e quando chegou a minha vez, já tinha tirado cinto, moedas dos bolsos, aneis, relogio e nem fiz a minha piadinha da prótese que nao tenho.
Já sentadinha no aviao e a precisar de Rexona em doses reforcadas, colei o nariz na janelinha minúscula tentando concentrar-me nas gotinhas de chuva que iam deslizando pelo vidro, levando outras gotinhas de arrasto, algo que sempre gostei de fazer quando estou triste. Acho que foi algo que me marcou num dis vídeos do Roberto Carlos dos anos oitenta, eu impressiono-me muito facilmente. O tempo lá fora combina com o meu estado de espírito e qualquer pessoa sente esta empatia da chuva, como se a Natureza e a minha alma se tivessem aliado.
A combinacao da tristeza e duma aterragem brusca - provocada por um piso alagado de água no aeroporto de Munique - fez-me comecar a pedir perdao baixinho pelos meus pecados e prometer nao voltar a andar de aviao sozinha. Chuif. De modos de que estou de volta... mas ainda triste e a afogar as mágoas em broa de milho com queijo e marmelada.

para os fans de Damien Rice

..deixo-vos a música mais bonita do ano. Nao é do Damien, mas é a mesma tendencia. Ou seja, mellow, slow...

trágico-cómica e omega 3

Ontem comprei um saco de nozes e vim toda contente para casa a pensar que me ia empanturrar de omega 3. Apenas me esqueci que nao tenho quebra-nozes e nem atirando as ditas cujas contra a parede pareceu ajudar.
Hoje muni-me de um quebra-nozes dos bons, por tres euros e meio, e cheguei a casa já devidamente artilhada para o ómega 3. De vez em quando, ainda dá jeito eu e o Bola falarmos uma ou outra coisa em ingles:
- Bola, isn't this cool? I finally have nuts for myself that I can play with and crush, other than yours.
Ele nao achou piada. Eu achei muita e ri-me desesperadamente, especialmente da cara deveras sensibilizada dele. E já lhe disse que um dia que tivermos filhos nos devemos ir pateticamente deles e com eles para nao crescerem atadinhos e sem capacidade de integracao nenhuma. Há que puxar o máximo dos genes portugueses nos desgracados, senao nada disto vale a pena.
É o que dá, vou a Portugal e quando regresso, o meu humor fantástico vem sempre tao acentuado. A típica cena trágico-cómica.

Sábado, Outubro 31, 2009

boa onda

Tem sido uma fase um pouco vazia em matéria de cinema, mas gosto sempre de dar numa de Lauro António, e deixar aqui a minha dica, numa de animar as tardes de Outono da malta. O filme é bom, a banda sonora ainda melhor.

parir like there's no tomorrow

O que pretende o meu Pai, ao enviar-me um link para um vídeo de um parto de um elefante? Assegurar que nunca vai ser Avô pela minha parte ou talvez, como o locutor, sublinhar que os partos dos elefantes sao rápidos e descomplicados e nós mulheres é que somos umas histéricas?
Bom, vi isto e só me apetece ir por aí fora parir à maluca.
Divirtam-se!
Vídeo aqui.

Sábado, Outubro 17, 2009

abc da gastronomia

Devagar o Bola vai fazendo os seus pequenos avancos na língua portuguesa. Hoje ao pequeno-almoco estudava atentamente o livro de cozinha da Vaqueiro, e entao a cada cinco minutos, lá vinham perguntas o que sao alcaparras ? o que é terrina? o que é cenoura? o que é alcachofra? o que é robalo?
Portanto paralelamente às legendas dos canais da tvcabo, temos agora um livro de estudo que serve de base à sua aprendizagem. Porque nao um livro de cozinha? Próximo livro a oferecer será com receitas da Filipa Vacondeus.
Entretanto, eu posso-me juntar à Maité Proenca em relacao à ignorancia da cultura do meu país, mas desta feita cultura gastronómica. Será que eu nunca comi cação?... e mero?
O Bola vai aprendendo portugues, eu vou aprendendo hindi, as palavras mais importantes para situacoes de emergencia.
ALVIDHA.

Maité ignorante

Fui ver o vídeo da Maite Proenca, em que ela goza com Portugal. É um bocado triste. Nao sabe apreciar a nossa cultura e claro que toda a gente é livre de fazer gracinhas e gozar com isto e com aquilo. Mas há que faze-lo de forma inteligente, nao passando a imagem de pessoa bruta, primitiva e ignorante. Quem dera aos Brasileiros a cultura riquíssima da Europa, que nao existe em nenhum canto da América. Gozem sim, eu tambem gozo com tudo, mas é preciso saber gozar. Ter cuidado. Ela podia ter feito uma reportagem pegando em muitas outras coisas, sem ter passado esta imagem de brasileira vazia, oca e ignorante. Que pena. O número da porta nao está ao contrário, o Tejo nao é o Atlantico e a arquitectura manuelina claro que nao lhe diz nada, porque haveria?
Em vez de uma mulher com os seus cinquenta e muitos, vemos uma reportagem duma teenager fútil que com certeza meteu qualquer coisa para a veia antes de por a cara liposugada em frente da camara.

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

crise existencial prolongada

Nao foi ainda desta que arranjei um cao. E tambem ainda nao arranjei um filho.
O Outono veio hoje em forca, só hoje, pois até agora era aquele ambiente romantico de folhas de várias cores, sol morno e pequenos-almocos ao fim-de-semana na esplanada. Hoje foi com chuva, vento e muito frio, só falta mudar a hora para os psiquiatras e psicólogos comecarem a ter os consultórios cheios.
Amanha vou tomar a vacina contra a hepatite A e tirar fotografias para preencher o formulário do visto para a Índia. Já nao posso ver os pai-natais no supermercado. Nem os calendários do advento. Alto lá com os cavalos, entao e o Halloween, essa festa pirosa das abóboras?
Mudei de escritório no trabalho e agora tenho que conviver com muitas mais pessoas do que até agora era habitual. Tantas vozes, é estranho e chato. Ninguem pode influenciar a voz que tem, mas é uma cruz quando temos de aturar timbres horríveis (nos outros), capazes de nos fazer subir a tensao em segundos.
O pensamento da semana é o mundo do desperdício em que vivemos. Há dias em que me custa a acreditar que no momento em que estou a escrever há pessoas a morrer de fome. A gente habitua-se a ouvir falar de morte por fome, sem nunca parar para pensar nisto. A sério, morrer de fome. De repente, restantes problemas da Humanidade deixam de me despertar este vazio, mas a fome sim. Nao sei o que se passa comigo. Claro que é legítimo pensar nestas coisas e deprimir-me, mas ao aproximar os trinta, sinto o peso dos anos. E outras coisas nas quais nunca parei para pensar antes e que nunca me incomodaram. Custa-me comer carne. Nao me atrai. Comeco a olhar para um bife e a imaginar que estou a comer carne humana. Há 15 dias pedi um peixe assado num restaurante e quando ele me apareceu no prato, inteiro, com o rabo virado para cima, senti algo que até agora nunca me tinha incomodado. E custou-me come-lo.
Ando assim, esquisita. Chata. Nao ando boa companhia para ninguem. Preciso desesperadamente de ocupar o meu tempo com outros, que precisam de mim, para além das oito horas que passo a contemplar o meu monitor. Sinto que a minha vida precisa de ganhar sentido, acho que é isso.
Será a preparacao espiritual para a Índia que nao tenho feito?